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Programa ABC tem dinheiro de sobra

26/08/2017

Dois trabalhos importantes acabam de ser lançados e cumprem com o objetivo de levantar os entraves que impedem, ou dificultam, os produtores de acessar os recursos da linha de crédito do Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC). Há dinheiro, porém, a demanda é fraca e leva uma fatia do fundo a permanecer nos cofres do governo.


Os estudos foram apresentados na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. Coordenador do GV Agro, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues informou que R$ 3 bilhões foram ofertados pelo Programa ABC em 2016 e somente R$ 2,1 bilhões foram acessados pelos agricultores. “Queremos entender o motivo pelo qual o programa não decolou como era esperado. Os levantamentos são um esforço nesse sentido.”

Um dos levantamentos foi conduzido pelo agrônomo Alexandre Mendonça de Barros, da MBAgro, de São Paulo. “O objetivo desse trabalho foi avaliar os critérios para a determinação das áreas prioritárias do programa, a fim de, eventualmente, sugerir uma alteração nos critérios de seleção. Buscou-se identificar possíveis causas para o descompasso entre recursos disponibilizados e contratados, para, então, se proporem mudanças no desenho dos contratos para elevar a captação por parte dos produtores”, explica.

Alexandre constatou que o “problema é de demanda por parte dos produtores nas áreas consideradas prioritárias pelo Programa ABC no Norte e, principalmente, no Nordeste”.

Ele confessa ter ficado um pouco surpreso com as constatações de seu estudo. “Antes de realizar o levantamento, tínhamos a percepção de que haveria uma área degradada grande nas regiões prioritárias e, consequentemente, demanda para investimentos robustos à adoção de tecnologias de baixo custo de carbono. Porém, como as captações se mostraram relativamente reduzidas, tornou-se relevante entender quais os problemas que restringem a tomada de recursos por parte dos produtores rurais”, explica o agrônomo.

Uma das principais conclusões do estudo é que as áreas selecionadas como prioritárias pelo Programa ABC são de maior risco climático e econômico e não são cobertas pelas principais rotas logísticas de exportação do Brasil. Além disso, dificilmente propiciam sistemas de integração entre lavoura e pecuária ou produção de madeira. “As taxas de juros e o preço do boi na região são outros pontos que impactam o Programa ABC”, segundo o relatório.

Além do levantamento de Alexandre Mendonça de Barros, a FGV Agro lançou outro rico estudo que analisou especificamente os motivos para a pouca adesão ao Programa ABC no município de Alta Floresta, localizado no Estado de Mato Grosso e que faz parte do bioma amazônico.

 

Foi constatado que os pecuaristas se mostram um pouco reticentes à incorporação de novas tecnologias e técnicas produtivas. O trabalho descobriu fatores limitantes de acesso ao crédito, como juros altos e burocracia, informa Evandro Faulin, pesquisador da FGV e um dos responsáveis pelo estudo em Alta Floresta. Foi detectado também o pouco conhecimento do Programa ABC. “Estamos desassistidos pela presença governamental”, declarou um dos produtores entrevistados.

Evandro relata que foram feitas 28 entrevistas com produtores rurais, representantes de bancos, governo e sociedade civil. As mudanças, no entanto, são iminentes, já que a maioria das propriedades possui pastagens velhas e degradadas, aponta o levantamento.

Angelo Gurgel, coordenador do Observatório ABC, informa que até hoje o programa no país não apresentou 100% de desempenho. Foi melhor na safra 2012/2013, quando alcançou um índice de 90%. Já na safra 2015/2016, o total de crédito usado foi de 68%. “Apesar dos avanços nos últimos anos, se comparado à média do mercado, o Programa ABC perde recursos que poderiam potencializar a redução das emissões. Falamos de uma iniciativa criada para apoiar o Brasil na busca por um modelo de produção mais sustentável, visando à meta de redução de 134 milhões a 163 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) equivalente até 2020”, diz. O Observatório ABC é uma iniciativa voltada a engajar a sociedade no debate sobre a agricultura de baixo carbono. Está em atividade desde 2013 e é coordenado pelo GV Agro.

Fonte: Globo Rural

Foto: Ernesto de Souza