Ao consumir alimentos em geral, boa parte da população nem imagina o tanto que a ciência e a tecnologia impactam nosso cardápio. Do campo à mesa, uma infinidade de pessoas está envolvida para que tenhamos, nas gôndolas dos supermercados, produtos naturais e industrializados com a melhor qualidade e segurança possíveis.

Atuando nessa cadeia está o Cientista dos Alimentos, profissional que estuda integralmente o alimento sob todos os aspectos, desde a composição e a conservação da matéria-prima, passando pela transformação na indústria, a comercialização no varejo e a chegada até a mesa do consumidor.

O primeiro curso de graduação nesse âmbito foi criado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 2001. Até hoje, quando o curso completa 25 anos, a Esalq já formou mais de 670 profissionais nessa área.

“O curso de Ciências dos Alimentos da Esalq é o primeiro do Brasil e foi a base para a criação de outros cursos em universidades públicas, por exemplo. Formamos um profissional que entenda do alimento desde a colheita até ele chegar na mesa do consumidor”, comenta a professora Paula Porrelli, atual coordenadora do curso.

Paula Porrelli é docente do departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos e atual coordenadora do curso de Ciências dos Alimentos da Esalq (crédito: Denise Guimarães)

Segundo a docente, o curso vem se atualizando nos últimos anos e, recentemente, a contratação de novos professores foi realizada para atender linhas de atuação que o mercado espera. “O profissional de Ciências dos Alimentos formado na Esalq tem um curso completo que envolve todos os aspectos dessa cadeia de produção. Recentemente contratamos uma docente para atuar na área de embalagens, por exemplo. Além das salas de aula, o aluno aprende na nossa planta piloto de processamento de produtos de origem animal, vegetal e de laticínios, além das aulas em laboratório e visitas técnicas às empresas e outras instituições do setor”.

Na prática, os estudantes cursam disciplinas obrigatórias e optativas que permitem conhecer todas as transformações que ocorrem na cadeia alimentar, desde a matéria-prima até chegar ao produto final vendido no mercado ou já na mesa das pessoas.

Consumidor

Os alunos de Ciências dos Alimentos têm a oportunidade de aprender, na prática, sobre o comportamento do consumidor ao longo da graduação. Entre outras oportunidades durante o curso, na disciplina de Análise Sensorial, por exemplo, realizam testes com consumidores reais, o que permite mapear percepções, preferências e reações diante de diferentes produtos. “Esse contato direto com o público amplia a compreensão sobre como decisões de consumo são formadas”, pontua a coordenadora.

Na disciplina de Pesquisa e Desenvolvimento de Alimentos, os estudantes participam de um módulo de estratégias e abordagens voltadas à inovação, como o Design Thinking, no qual aplicam conhecimentos para desenvolver produtos alinhados às demandas e expectativas do mercado. “No final do primeiro semestre de 2026, a turma foi desafiada a criar produtos direcionados à saúde intestinal. O levantamento das necessidades dos consumidores nessa linha foi o ponto de partida para a criação de novas soluções na área”, explica a professora Paula.

Felipe Baruque graduou-se em 2005, na segunda turma do curso, após concluir o curso Técnico em Química. Já estagiava na Unilever em Vinhedo (SP) e, durante a graduação, uniu seus interesses profissionais. “Eu procurava algo com ciência e tecnologia e sempre tive curiosidade pelos alimentos em geral, tecnologia de alimentos, fermentação, processamento”.

Felipe Baruque é egresso do curso de Ciências dos Alimentos e atualmente é Vice-Presidente de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev (Acervo pessoal)

Entre o estágio e a graduação, Baruque forjou uma formação técnica e prática que lhe permitiu traçar uma carreira sólida na área. Após seis anos na Unilever, foi contratado pela Ambev, onde ocupa, atualmente, o cargo de Vice-Presidente de Suprimentos e Sustentabilidade. “Comecei no chão de fábrica, no turno da madrugada. Durante muitos anos da faculdade dormia cerca de 4h para poder conciliar as aulas a noite com meu trabalho na Unilever. Isso não me fez desistir, muito pelo contrário, me ensinou a concentrar minha energia no que de fato faz sentido, me impulsionando a cada dia”.

Dos tempos de Esalq, se recorda de passagens que contribuíram para o se sucesso no mercado de trabalho. “Me lembro das aulas de teste sensorial, onde aprendi a entender a cabeça do consumidor, isso me ajudou muito a ser um profissional de Pesquisa e Desenvolvimento. Na Esalq, acabei realmente me apaixonando por processamento e tecnologia de alimento”.

Giuliana Quirino Uccela é aluna do nono semestre e conta que também se identificou com a área de análise sensorial. Hoje, faz estágio na área de Criação de Aromas de Doces e Bebidas.

“Na graduação, me interessei pelas áreas de Análise Sensorial, Pesquisa & Desenvolvimento de Produtos e também com as disciplinas de Produtos de Origem Vegetal I e Produtos de Origem Animal II, que permitiram que eu aprendesse como ocorre a fabricação de produtos lácteos e de toda a cadeia produtiva de produtos de origem vegetal, desde a colheita, o processamento e o período de pós-colheita, até que ele esteja na casa do consumidor”.

Nas atividades de estágio na Symrise Aromas e Fragrância, Giuliana auxilia no desenvolvimento de aromas para a aplicação em doces e bebidas de grandes marcas, como a Nestle, Ambev, Mondelez e Coca Cola.

“O estágio também tem me ajudado bastante durante as aulas porque ter a noção de como tudo funciona na prática industrial me faz ter uma visão bem mais ampla do que aprendemos na teoria e até me trouxe mais facilidade em compreender a parte teórica, já que ficou mais fácil visualizar e concretizar os conceitos”.

Giuliana Quirino Uccela cursa o nono período no curso de Ciências dos Alimentos e
realiza estágio na área de Criação de Aromas de Doces e Bebidas (acervo pessoal)

No dia a dia, a estudante conta que tem contato com aromistas que desenvolvem as formulações para atender o desenvolvimento de novos produtos. “Depois que o aroma é formulado, ele passa para o laboratório de aplicação, para a realização dos testes nos produtos”, detalha a estudante.

Internacionalização

O curso também oferece disciplinas optativas, nas quais os alunos ampliam seu horizonte e, do contato com estudantes dos outros cursos e professores da Esalq, surgem outras possibilidades na formação. Muitos realizam intercâmbio com bolsa fora do país e o curso possui, desde 2011, um programa de duplo diploma com a Oniris (Escola Nacional de Veterinária, Alimentação e Agricultura de Nantes, França).

Vinicius Silva Paiva realiza estágio na Universidade do Porto (reprodução @gespins.esalq)

“Estamos em fase de verificação da grade horária dos cursos e a expectativa é que em 2027 estejam ativos novamente. Mesmo assim, mantemos vários acordos de mobilidade em vigência com outras escolas da França, principalmente. Além disso, este ano aprovamos um projeto Brafragri que contempla duas bolsas anuais. A seleção desse ano já definiu duas estudantes que seguirão no próximo mês de setembro para a UniLasalle”, explica a professora Paula Porrelli. O Brafragri é um programa de intercâmbio acadêmico e científico entre o Brasil e a França, coordenado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), voltado para estudantes de graduação na área de Ciências Agrárias.

Vinicius Silva Paiva é aluno do curso e hoje realiza estágio no Grupo de Espectroscopia e Instrumentação (GESPINs), que tem coordenação do professor Tiago Bueno de Moraes, do departamento de Engenharia de Biossistemas. A partir da concessão de uma bolsa BEPE(Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior), oferecida pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Vinicius está na Universidade do Porto, realizando pesquisas com mensuração de óleo em grãos de café.

“Tem sido uma experiência enriquecedora tanto no ponto de vista científico quanto pessoal, permitindo contato com novas técnicas, pesquisadores e diferentes culturas”.

Durante sua graduação em Ciências dos Alimentos na Esalq, o estudante Gustavo Maximiano Alves também vivenciou uma experiência internacional que ampliou significativamente sua formação acadêmica e profissional. Gustavo realizou intercâmbio na UniLaSalle entre agosto de 2024 e setembro de 2025, período correspondente. “Lá tive contato com disciplinas de enfoque internacional, abordando temas como desenvolvimento sustentável, epidemiologia, doenças crônicas e bioquímica com ênfase em saúde”, conta o estudante.

Gustavo Maximiano Alves realizou parte da graduação na França na UniLaSalle – Beauvais (acervo pessoal)

Além das atividades em sala de aula, Gustavo participou de visitas técnicas, projetos de pesquisa e trabalhos em equipes multiculturais, experiências que contribuíram para o desenvolvimento de uma visão mais ampla sobre os sistemas alimentares e os desafios globais relacionados à alimentação. Segundo ele, o intercâmbio complementou a formação adquirida na Esalq.

“A vivência no exterior permitiu o aprofundamento em temas como sustentabilidade, saúde pública e inovação, além do fortalecimento de competências essenciais como comunicação intercultural, autonomia e trabalho em equipe. Essa combinação ampliou minha capacidade de atuar em diferentes contextos e de contribuir para soluções inovadoras na área de Ciências dos Alimentos”, destaca.

Durante o período na França, Gustavo também teve a oportunidade de conhecer o Embaixador do Brasil no país, em um encontro que considerou marcante. “Esse momento evidenciou a importância do apoio institucional às iniciativas de intercâmbio e aos estudantes brasileiros que buscam formação internacional.

Extensão e divulgação

No campo da Extensão, os estudantes de Ciências dos Alimentos podem ampliar o processo de aprendizagem e aprimorar a habilidade de levar o conhecimento produzido na universidade para além dos muros da Esalq. Muitos deles ingressam nos grupos de Extensão. O curso contempla, na Extensão, temas como pescado, carnes, microbiologia, bebidas e segurança dos alimentos.

Também há o Grupo de Extensão em divulgação do curso de Ciências dos Alimentos (GDCAL), que oferece oportunidades para estudantes trabalharem com a divulgação do próprio curso na realização de palestras, participação em feiras de profissões e na recepção de grupos escolares nas dependências da Esalq. Em maio deste ano, o GEDCAL coordenou as atividades do projeto Alimentos na Esalq, que mostrou durante a 5ª edição do EsalqShow, parte das atividades desenvolvidas em projetos de extensão do curso.

Estudantes assistem a uma apresentação dentro do projeto Alimentos na Esalq (crédito: Denise Guimarães)

Nos dois dias de evento, o Alimentos na Esalq apresentou atividades interativas, demonstrações práticas e experiências sensoriais. Voltado à divulgação científica e à educação alimentar, o projeto contou com envolvimento direto dos estudantes do curso e propôs uma imersão em temas como segurança dos alimentos, microbiologia, qualidade de produtos de origem animal e vegetal, tecnologias de processamento e hábitos de consumo.

“Participar de projetos como o Gedcal contribui com a formação dos nossos alunos por oferecer oportunidades e motivação para eles compreenderem melhor as áreas nas quais poderão atuar sendo cientistas dos alimentos, enquanto disseminam conhecimentos para a população”, comenta o professor Alan Sartori, coordenador do Alimentos na Esalq. Os alunos do GEDCAL são responsáveis, ainda pelo perfil @alimentosusp no Instagram, que tem atualmente mais de 17 mil seguidores.

“Atuando na Extensão, eles se sentem mais confortáveis para superar limites de timidez para falar com grupos e para criar formas lúdicas de transmitir conhecimentos para o público leigo. Reforça-se, assim, o ensino e a aprendizagem. Além disso, eles desenvolvem a habilidade de solucionar problemas, ao lidar com imprevistos comuns durante a organização e a realização de visitas e eventos”, complementa Alan Sartori.

Carreira acadêmica

Além das possibilidades de atuação na indústria e outras oportunidades durante a graduação, o curso de Ciências dos Alimentos prepara os estudantes para o ingresso na carreira acadêmica.

Rodrigo Aparecido Moraes de Souza é egresso da primeira turma de Ciências dos Alimentos da Esalq, formada em 2005; hoje, Rodrigo atua como docente na Universidade Federal de Uberlândia (acervo pessoal)

Rodrigo Aparecido Moraes de Souza é egresso da primeira turma de Ciências dos Alimentos da Esalq, formada em 2005. Optou por seguir a vida acadêmica e, antes de ingressar no mercado, fez o mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos na Esalq e o doutorado em Ciência pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP).

Após a formação na Esalq, trabalhou como professor no Instituto Federal do Mato Grosso, atuando na docência do curso técnico em Alimentos e no curso superior de Gestão Ambiental. “Depois passei em um concurso e, desde 2014, leciono no curso de Engenharia de Alimentos na Universidade Federal de Uberlândia, campus Patos de Minas”. Ainda na graduação, participou de momentos marcantes no processo de consolidação acadêmica do curso.

“Participei junto com outros colegas da criação e fui o primeiro presidente do CACAL (Centro Acadêmico de Ciências dos Alimentos) e também o primeiro presidente da APCAL (Associação dos Profissionais de Ciências dos Alimentos)”, conta o egresso que se lembra ainda de um jornal do curso que circulou por alguns anos.

Rodrigo conta que já havia cursado um ano de Contabilidade e não se identificou, mas encontrou na Esalq uma oportunidade diversa para o ingresso no mercado de trabalho. “O início do curso foi marcado por muitos desafios, e os estudantes sempre contaram com o apoio dos professores. Junto lutamos para que aquele novo curso tivesse a excelência da Esalq, já característica dos pioneiros Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal e Ciências Econômicas. Com o nosso Ciências dos Alimentos, a Esalq passou a ter vida noturna, foi uma grande mudança. O curso me abriu muitas portas, pois na Esalq adquiri conhecimento técnico acadêmico, mas também uma visão ampla sobre as possibilidades que existem no mercado de trabalho”, conclui.

Curso de Ciências dos Alimentos foi o 1º curso noturno oferecido na Esalq (Infográfico gerado via Gemini/IA)

O projeto pedagógico do curso de Ciências dos Alimentos da Esalq prevê a formação de profissionais com capacidade de articular e mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes para resolver problemas, enfrentar imprevistos, trabalhar em equipes e intervir em situações para melhoria da qualidade dos processos, produtos e serviços, com criatividade, liderança, visão empreendedora e dentro de princípios éticos. Considera ainda uma atuação responsável no sentido de considerar a sustentabilidade social, econômica, cultural e ambiental e o respeito a todos os agentes envolvidos na cadeia alimentar.

Todos os anos, a Esalq oferece 40 vagas neste curso, via vestibular da Fuvest, sistema ENEM-USP, Provão Paulista e olimpíadas do conhecimento.

Saiba mais: www.esalq.usp.br/graduacao/cursos/ciencias-dos-alimentos

Texto: Caio Albuquerque (26/06/2026)