Uma pesquisa desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), traz avanços significativos na compreensão e na modelagem da erosão hídrica em ambientes tropicais. O estudo foi conduzido pela engenheira agrônoma Veronica Marques Alves no Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas, sob orientação do professor Miguel Cooper, do Departamento de Ciência do Solo.

A pesquisa parte de uma questão central: a inadequação de modelos de erosão desenvolvidos em regiões de clima temperado, quando aplicados diretamente a solos tropicais. “Esses ambientes apresentam características específicas como alto grau de intemperismo, mineralogia rica em óxidos de ferro e alumínio e dinâmica hidrológica complexa que não são devidamente representadas nos modelos convencionais, comprometendo a confiabilidade das estimativas de perda de solo”, aponta a pesquisadora. A área do projeto é uma bacia hidrográfica de primeira ordem no estado do Paraná nos estornos do reservatório da Usina Binacional Itaipu, no qual a tese está alocada dentro do Programa AISA (Ação Integrada de Solo e Água) o qual se trata de uma iniciativa estratégica da Itaipu Binacional, em parceria com a Embrapa, IDR-PR, Faped, e Esalq, e Secretaria Agricultura e do Abastecimento do Paraná, focado na conservação de solo e água na região do reservatório (PR e MS), com o intuito de viabilizar esforços para adoção de práticas conservacionista do solos visando a diminuição de processos de sedimentação e assoreamento dos recursos hídricos e suas contribuições no reservatório final para geração de energia hidrelétrica.

Com o objetivo de superar essas limitações, o trabalho propõe uma abordagem integrada que combina modelagem física, análise climática e ferramentas de ciência de dados. Entre as etapas, destacam-se a revisão sistemática da literatura científica, a análise de padrões de precipitação no estado do Paraná entre 2000 e 2024 e a utilização de séries climáticas de alta resolução para alimentar modelos hidrológicos.

De acordo com a autora, o núcleo da pesquisa foi a aplicação do modelo WEPP (Water Erosion Prediction Project), aliado ao GeoWEPP, em uma microbacia hidrográfica no município de Toledo (PR). “Utilizamos parâmetros de solo derivados experimentalmente e dados climáticos de alta resolução”. O diferencial, no entanto, está na parametrização dos solos com base em dados experimentais locais, permitindo parametrizar as variáveis essenciais para análises de sensibilidade do modelo. “Essa adaptação mostrou-se determinante para garantir maior consistência físico-hidrológica nas simulações”, complementa a engenheira agrônoma.

Resultados – Os resultados mostraram que o uso de parâmetros não parametrizados para as condições reais do campo, pode gerar distorções e condicionar o processo de tomada de decisão de forma equivocada. “Enquanto a calibração baseada em dados locais melhora significativamente a confiabilidade dos modelos. O estudo também revelou comportamentos hidrológicos não lineares em solos tropicais e destacou a importância da variabilidade climática e de eventos extremos na dinâmica da erosão”, detalha.

Além dos avanços científicos, a pesquisa tem impactos diretos no setor agrícola e na gestão ambiental. Ao permitir estimativas mais precisas da perda de solo, contribui para o planejamento de práticas conservacionistas mais eficazes, reduzindo riscos de degradação e perda de produtividade. “Também oferece subsídios para políticas públicas voltadas à conservação do solo, gestão de recursos hídricos e planejamento territorial”, antecipa Verônica Alves.

Finalmente, outro diferencial do trabalho é sua abordagem socioambiental. A pesquisa evidencia que a erosão do solo vai além de um processo físico, estando associada à insegurança alimentar, à perda de renda e ao aumento da vulnerabilidade de populações rurais.

“Nesse contexto, o estudo reforça a conexão entre conservação do solo e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propondo estratégias integradas que envolvem agricultura regenerativa, gestão da paisagem e articulação entre ciência e saberes locais”, conclui a pesquisadora.

O projeto contou com financiamento da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), além de parcerias institucionais e uso de dados de pesquisas colaborativas.

Texto: Caio Albuquerque