Com a continuidade da guerra no Irã e a consequência direta na circulação pelo estreito de Ormuz, a agricultura brasileira tem sido diretamente impactada. Um terço dos fertilizantes comercializado no mundo passa pela região em conflito e, no caso do Brasil, 80% desses produtos essenciais para a agricultura dependem de operações de importação.
“O resultado deste cenário é o aumento no preço dos fertilizantes e substâncias como o enxofre”, indica Heitor Cantarella, da Divisão de Solos do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e titular da Cátedra Luiz de Queiroz, ligada à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).
No último dia 24 de setembro, durante aula magna que marcou o encerramento do ciclo do pesquisador à frente da cátedra na Esalq, Cantarella traçou um panorama marcado pela problemática da dependência externa da agricultura brasileira pelo uso de fertilizantes. Mais ainda, apresentou as ações que estão sendo desenvolvidas por empresas e produtores e quais os efeitos dessas ações no curto prazo.
“O plantio da safra no Brasil está começando e o momento desafiador tem demandado ações de adaptação no campo. Além das dificuldades de circulação no estreito de Ormuz, China e Rússia pararam de exportar, o que pressionou ainda mais os preços no mercado internacional e a sobrevivência financeira do produtor”, aponta Cantarella.
O catedrático lembrou que, apesar de o governo federal ter anunciado um acordo com Marrocos, que prometeu fornecer 75% da demanda brasileira, a medida não deve resolver o desafio no curto prazo. “Ainda não temos a definição de quando esses produtos começaram a desembarcar no Brasil nem a que preço. O cenário ainda é de preocupação com a produtividade e a lucratividade do setor, e os reflexos desse quadro no preço dos alimentos e por consequência no cenário de inflação”.

os efeitos para a agricultura brasileira (crédito: Gerhard Waller)
Recomendações – Diante de tantos desafios, Heitor Cantarella propõe planejamento com objetivo de minimizar os prejuízos. Segundo o catedrático, o cenário de crise ainda sem horizonte positivo requer que empresas e produtores invistam no básico e em ferramentas já à disposição de longa data. “Primeiro não devemos nos esquecer da análise de solo, medida que dá ao produtor informações precisas sobre a demanda de fertilizantes e temos aqui uma rede de laboratórios públicos e privados à disposição. Além disso, a calagem deve ser empregada, pois temos calcáreo em abundância no Brasil”.
Entre as recomendações apresentadas para alunos e professores da Esalq durante a aula magna, estão iniciativas de economia circular, aplicação de bioinsumos e boas práticas como a aplicação do conceito 4C, que sugere usar o fertilizante certo, na quantidade certa, na hora certa e no lugar certo — buscando produtividade com eficiência e menor impacto ambiental.
“Além disso, devemos considerar medidas no pós-crise, adotando ações de recomposição do solo aos níveis anteriores desse cenário atual”.
Cátedra – Heitor Cantarella ocupou a função de titular da cátedra Luiz de Queiroz nos ciclos 2024/5 e 2025/26. Durante sua passagem pela cátedra, deu especial atenção à educação continuada em fertilizantes e sustentabilidade, aproveitando a experiência da Esalq e do IAC no assunto.
“Atuamos de forma próxima dos estudantes, procurando aprofundar os conhecimentos sobre o tema, desenvolver pensamento crítico, realizar pesquisas inovadoras em parceria com instituições de ensino e pesquisa, além de empresas da iniciativa privada para se prepararem para um mercado que demandará profissionais altamente qualificados”. Segundo Cantarella, o tema fertilizantes e sustentabilidade continuará sendo importante nas próximas décadas. “É uma área com muitas oportunidades para profissionais com boa formação. Inovar nesse setor trará para os futuros profissionais formados na Esalq uma carreira bem promissora”.
Segundo a diretora da Esalq, professora Thais Vieira, o ciclo de Heitor Cantarella na cátedra Luiz de Queiroz foi positivo justamente pela aproximação com os estudantes e por tratar de um tema atual. “Esse modelo aproximou nossos estudantes de um tema urgente na nossa sociedade”.
Ao longo da sua gestão, Cantarella teve o professor Paulo Sergio Pavinato, do departamento de Ciência do Solo, como tutor nas atividades junto aos acadêmicos. A parceria rendeu a realização eventos técnicos e aulas específicas no tema, além de visitas técnicas. “O professor Cantarella é um expoente nos estudos sobre fertilizantes e trouxe muito conhecimento para os nossos estudantes em um tema tão rico e necessário para a formação na graduação e pós-graduação. Ao longo desses dois anos, pudemos realizar ações que impactaram a formação dos discentes que puderam estar conosco”, finalizou professor Pavinato.
Além da aula magna, proferida pela manhã do dia 24 na Esalq, Cantarella entregou na parte da tarde seu relatório final na reunião da Congregação da Esalq. Também foi apresentado o documento “Crise dos fertilizantes – como apoiar agricultores diante da alta nos preços”. Assinado por Heitor Cantarella e Paulo Pavinato, o documento traz recomendações e responde questões como “Por que esse momento requer esses ajustes no uso de fertilizantes?” e “O que pode ser feito?”.
O documento pode ser acessado abaixo.