Vigilância ativa contra a Febre Maculosa

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O Horto de Tupi será uma das áreas mapeadas (Comissão Técnica Permanente de Prevenção e Controle da Febre Maculosa da Esalq)
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Os meses de abril e maio marcam o início do aparecimento de uma nova geração do carrapato estrela, transmissor da febre maculosa, na região de Piracicaba. Para manter o baixo nível de incidência da doença registrado em Piracicaba em 2018 (4 casos, dos quais 3 foram curados), uma equipe multiinstitucional e multidisciplinar iniciou um trabalho para identificar áreas mais vulneráveis à ocorrência dessa doença, para a implantação de medidas preventivas.

Em 2013, o reitor da Universidade de São Paulo criou a Comissão Técnica Permanente de Prevenção e Controle da Febre Maculosa da Esalq. Participam hoje desta comissão profissionais das áreas de medicina, veterinária, agronomia, biologia, geografia, enfermagem, turismo e estudantes universitários. São representantes da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ/ USP), Vigilância Epidemiológica Estadual, Secretaria Estadual da Saúde (Sucen), Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Centro de Controle de Zoonoses – Secretaria Municipal da Saúde (CCZ-SS) Secretaria Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Sedema), Embrapa e ICMBio.

Os trabalhos conduzidos no campus Luiz de Queiroz têm sido intensos no sentido de reduzir os riscos de ocorrência da enfermidade. De acordo com seu atual coordenador, professor Gilberto Moraes, é interesse da Comissão começar a compartilhar a experiência realizada na Esalq para outras partes do município de Piracicaba. “Nossa proposta é o desenvolvimento de um plano piloto de priorização das áreas públicas de maior risco, dentro de um contexto de recursos escassos da Prefeitura Municipal”. O docente se refere ao início de um novo projeto no município de Piracicaba, visando a estabelecer um protocolo de determinação de áreas com maior risco de ocorrência da doença, que tem como elementos principais o ser humano, a bactéria que causa a doença, o carrapato-estrela (que transporta a bactéria de um animal a outro, inclusive ao próprio ser humano) e a capivara, principal hospedeiro do carrapato e da bactéria.

O trabalho será realizado em cinco regiões mais apropriadas para a ocorrência da doença: Horto do Tupi, Lagoa de Santa Rita, Lagoa do Unileste, Ribeirão Piracicamirim (proximidade do Jardim Brasília) e Rio Piracicaba (proximidade do Parque do Mirante). Constituirá de avaliações em sequência da presença de capivaras, do carrapato, da bactéria e do próprio ser humano. Com base nestas avaliações, serão determinadas quais ações preventivas devem ser tomadas em cada região, de acordo com o nível relativo de perigo encontrado em cada uma delas. Regiões mais perigosas receberão maior intervenção da prefeitura para reduzir o risco. A ideia é que após a conclusão do projeto, os órgãos competentes da prefeitura municipal possam realizar trabalhos semelhantes em outras regiões. “Trata-se de um trabalho de 18 meses, que está começando agora, com a participação de alunos e professores da Esalq e FMVZ, técnicos da Sedema, Centro de Controle de Zoonoses e Vigilância Epidemiológica Estadual”, conta o professor.

Vigilância ativa – A ação apresentada na última reunião da equipe apontou o caminho da vigilância ativa como via de monitoramento de áreas de risco. Segundo o médico veterinário Marcelo Labruna, da FMVZ/USP, a febre maculosa está espalhada em diferentes áreas, mas nem todas as populações de carrapatos estão infectadas pela bactéria causadora da doença e da mesma maneira nem toda capivara carrega carrapatos infectados. “Diante desse cenário, existem dois tipos de abordagem na saúde pública. A vigilância ativa e a passiva e infelizmente a que tem ocorrido na maioria dos casos é a passiva, ou seja, a mobilização após a morte de pessoas. Esse projeto elencará áreas de maior potencial de ocorrência da doença em Piracicaba antes que alguém vá a óbito, ou seja, propomos aquilo que chamamos de vigilância ativa. Vamos mapear onde estão as bactérias para implantar medidas de prevenção antes que sejam registrados casos de morte”.

Labruna coordenará a etapa laboratorial de análises de sangue em gambás, que atuam como animais sentinelas, ou seja, aqueles que pegam mais carrapatos e, portanto, sinalizam maior incidência da bactéria. “É muito mais fácil trabalhar com os gambás do que com as capivaras. A partir desses exames serão registrados os índices de anticorpos contra a bactéria causadora da maculosa. Com essa abordagem, uma área na qual nunca tenha se registrado casos da febre maculosa poderá ser considerada de risco de infecção humana. Aí entrarão as medidas educativas de prevenção, a sinalização de área de risco que possibilitará que uma pessoa picada pelo carrapato informe com mais rapidez as equipes de saúde para que se inicie o tratamento medicamentoso”.

Relatar o problema – O problema da febre maculosa existe na região Sudeste do Brasil e, segundo o agrônomo Carlos Perez, Piracicaba está no olho do furacão. “Um dos grandes propósitos é criar junto com a prefeitura uma parceria para resolver uma questão de saúde pública”. Segundo Perez, disseminar a informação é fundamental para dar à população a possibilidade de procurar o posto de saúde imediatamente caso seja picada. “Ao notificar o problema, a equipe médica pode entrar de maneira assertiva com a medicação contra a ação do carrapato se for o caso. Sintomas de outras doenças como gripe, dengue, meningite, se parecem com os da febre maculosa. Então é fundamental dizer que foi picado pelo carrapato para que o diagnóstico seja feito o mais breve e o tratamento idem”.

Parceria – Uma das ações já encaminhadas por esta comissão à Sedema sugere a intensificação do reflorestamento das margens do ribeirão Piracicamirim, que atravessa bairros populosos e traz grande oferta dos tipos de capim consumidos pelas capivaras. “Com isso, capivaras que durante o dia se abrigam no campus saem à noite para aí se alimentar. Além do que, o reflorestamento traria outros benefícios para o município”, explica Carlos Perez.

Marianna Curi atua como médica veterinária da Sedema e diz que essa e outras ações estão sendo avaliadas. “Certamente esse elo com a Esalq é necessário para resolvermos um problema grande, de anos, mas que tem melhorado ao longo do tempo. A qualidade de vida da população pode ser melhor a partir dessa ação conjunta”.

Para a coordenadora do CCZ, Eliane Silva, Piracicaba está aprendendo a conviver com a febre maculosa. “Piracicaba é cortada por rios e córregos, além das lagoas com a presença de capivaras. No parque da Rua do Porto e no Engenho Central, locais que recebem grande quantidade de pessoas, mantemos alerta constante. Ao mesmo tempo a população precisa relatar o problema, precisa respeitar as placas de sinalização e a rede médica precisa estar continuamente atenta. É preciso aprender a conviver. Esse trabalho com a Esalq tem levado a resultados positivos nesse sentido”.

Ações educativas – O CCZ desenvolve um trabalho de vigilância com a sinalização de áreas de ocorrência de carrapato estrela, a identificação acarológica e a demarcação de áreas de risco com emplacamento com alertas de infestação, sintomas e risco de morte. “Partilhamos com a Esalq as notificações de casos, o que amplia a vigilância. Além disso, promovemos a distribuição de material educativo e palestras em escolas e empresas instaladas próximas às margens do rio Piracicaba”, reforça Regina Lex Engel, bióloga do CCZ.

Caberá à professora Odaléia Telles Marcondes Machado Queiroz, coordenadora do curso de Gestão Ambiental da Esalq, a etapa de levantar o perfil dos usuários que buscam lazer em rios e lagoas, ou seja, áreas com riso da doença. Serão realizadas entrevistas com turistas no intuito de registrar a frequência nesses locais e a percepção dessas pessoas com relação à febre maculosa. “Com a percepção dessa circulação das pessoas por esses locais, pretendemos construir um almanaque que traga informações sobre sintomas, ocorrências e ações de prevenção. Importante destacar que a atuação dessa equipe multidisciplinar permite uma abordagem múltipla para entendermos o problema e conscientizar a população exposta a esse risco”.

Pelo quarto ano consecutivo, ocorrerá em julho na Esalq a Campanha de Férias para a conscientização da população que visita o campus. Durante os finais de semana daquele mês, os visitantes do campus Luiz de Queiroz terão à disposição um estande que trará material ilustrativo sobre os organismos relacionados a esta doença. “Assim como nos anos anteriores, a população receberá explicações e as crianças e adultos poderão ver em microscópios o carrapato-estrela. A ideia é que as pessoas aprendam um pouco sobre esta doença, principalmente no que se refere às precauções e ações a serem tomadas com o aparecimento dos sintomas, que inclui febre alta, dor de cabeça e mal-estar geral, dentro de poucos dias após a picada”, finaliza Carlos Perez.

Texto: Caio Albuquerque (03/04/2019)