Uma ciência pioneira

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Na ESALQ, os estudos com ciência do solo fazem parte das competências oferecidas aos estudantes desde sua criação, em 1901 (crédito: Roberto Amaral)
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Para comemorar o Ano Internacional dos Solos (a 68ª Sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, realizada em dezembro de 2013, declarou 2015 como o Ano Internacional dos Solos), a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ) publica a partir de hoje, por meio de uma parceria entre o Departamento de Ciência do Solo e a Assessoria de Comunicação, uma série de reportagens com o propósito de registrar as contribuições de seus docentes e pesquisadores nesta área. “No Estado de São Paulo, a ESALQ e o Instituto Agronômico são instituições pioneiras nos estudos de conservação do solo e manejo de bacias hidrográficas. A ESALQ, desde 1901, tem atuação marcante na formação de profissionais qualificados e comprometidos com a sustentabilidade, contribuindo, portanto, de forma significativa para o desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro”, afirmou Antonio Roque Dechen, docente do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ, em seu artigo “O solo nosso de cada dia”, que dá nome a essa série.

As reportagens serão publicadas entre agosto e dezembro de 2015, no site da ESALQ. Na primeira reportagem, apresentamos uma breve linha do tempo do Departamento de Ciência do Solo na ESALQ, mostrando as transformações acadêmicas, administrativas e científicas ao longo do século 20, desde a criação da instituição, até os dias de hoje, quando o programa de Solos e Nutrição de Plantas, um dos pioneiros na Escola, completou 50 anos.

Origem – Na ESALQ, a ciência do solo faz parte das competências oferecidas aos seus estudantes desde os primeiros dias da instituição. Em 1901, quando tiveram início as atividades acadêmicas, a então Escola Agrícola Prática de Piracicaba estava estruturada em Cátedras, ou Cadeiras, entre elas a de Química Agrícola (2ª Cadeira). Posteriormente, o conhecimento ligado ao solo passou a ser contemplado também pela Cadeira nº 13, de Solos e Agrotecnia e pela 18ª Cadeira, de Geologia e Mineralogia. Em 1970, a Portaria nº 1.023, do reitor da USP, instituiu a departamentalização na Universidade e assim surgiu o Departamento de Solos e Geologia, que depois passaria a ser chamado Departamento de Solos e Nutrição de Plantas e, finalmente, hoje denominado como Departamento de Ciência do Solo.

Apesar do pioneirismo na história da instituição, os estudos pedológicos ainda careciam de amadurecimento técnico e adequação à nossa realidade. “Até o [professor] Guido Ranzani se tornar catedrático, em 1957, a parte de solos era lecionada a partir do que estava escrito nos livros. Não havia conhecimento sistematizado a partir do contato direto, de experiências...só abriam o livro e davam aula”, aponta Zilmar Ziller Marcos, docente da área de Física do Solo entre 1963-94. Outro ponto apontado pelo professor Zilmar, consequência da necessidade de melhorar a capacitação nessa área, diz respeito à subutilização de recursos materiais. “No final dos anos 1950, a fundação Rockfeller avaliou o potencial da ESALQ para ceder bolsas de estudo, fizeram doações para compra de equipamentos, chegou um aparelho de raio X para medir argila. Era um aparelho enorme, mas foi muito pouco utilizado por desconhecimento da tecnologia na época. Na nossa Cadeira, foi pedido um laboratório de vidro, para montar vidraria, mas ninguém sabia usar, aquele monte de barra de vidro ficou lá...só depois de mais de uma década, apareceu no Cena um vidreiro, que sabia usar aquele material e assim ele pedia algumas barras. Então, a ESALQ passou por um período em que havia mais recursos do que capacidade para usá-los”.

Qualificação – O salto de qualidade esperado veio somente com a assinatura do acordo com a The Ohio University, em 1964, que resultou no intercâmbio de docentes. Da área de Solos, o primeiro a ir para os Estados Unidos inserido no convênio foi o próprio Zilmar, mas somente em 1968. Ainda em 1964, a ESALQ implantou, de forma pioneira na USP, os seus primeiros programas de pós-graduação, entre eles o de Solos e Nutrição de Plantas. “Antes da pós-graduação não havia velocidade na formação das pessoas”, aponta José Luiz Ioriatti Demattê, professor aposentado da área de Mineralogia e Geologia. Outra iniciativa inovadora foi a criação, em 1965, do Centro de Estudos de Solos da ESALQ, ação coordenada pelo professor Guido Ranzani que durou até 1973. A partir de modelos de análises trazidos por Ranzani dos EUA, o projeto promoveu a caracterização dos solos de países sul-americanos, que foram percorridos por pesquisadores da ESALQ.  Ainda no mesmo departamento, o professor Geraldo Victorino de França abriu as portas da fotopedologia para o Brasil, sendo o maior estudioso desta técnica com inúmeros seguidores.

Novas áreas e interfaces – Segundo o professor Demattê, ainda na década de 1980, o Departamento sinalizava a necessidade de ajustes históricos oriundos do agrupamento das cátedras e vislumbrava a aproximação com outros vetores científicos. “Tínhamos que melhorar na parte pessoal, estrutural e reunir de forma mais harmoniosa os envolvidos naquela junção das cátedras. Ao mesmo tempo, tínhamos que nos organizar em termos de laboratório para prestação de serviços à comunidade, mas não havia verba”. Assim, foi criado o embrião do que é hoje o Laboratório de Análise Química dos Solos, que realiza anualmente cerca de 35 mil análises de solo e que recebeu, em 2012, a acreditação pelo INMETRO na NBR ISO 17025 de qualidade de laboratórios de ensaios. “Então começamos a gerar recursos para bancar o pessoal que vinha de fora dar aulas na pós-graduação, compramos veículos e nos tornamos, de certa forma, autossuficientes em termos de gestão financeira” Outra mudança apontada pelo professor Demattê foi o início dos estudos em Microbiologia dos Solos. “A área de Microbiologia, integrada à área de Solos, foi um pioneirismo do Departamento da ESALQ. E hoje há uma interação muito forte com a Química dos Solos. Houve um fortalecimento em uma área que ainda pouco havia se manifestado por aqui”. 

Em cinco décadas, o programa de pós-graduação em Solos e Nutrição de Plantas já outorgou 1.296 títulos, sendo 697 mestrados e 599 doutorados. Desde 2004, avaliação trienal da Capes confere ao programa a nota máxima 7, equivalente à qualidade de nível internacional.

Hoje, o Departamento de Ciência do Solo tem 20 docentes e 31 técnicos, que atuam nas áreas de Solos, Adubação de Culturas, Nutrição Mineral de Plantas e Microbiologia do Solo. Recentemente, além do enfoque agronômico tradicional, o Departamento tem incrementado sua atuação em estudos ambientais. A maioria dos docentes participa do programa de pós-graduação em Solos e Nutrição de Plantas, que confere aos estudantes uma visão ampla dos atributos mineralógicos, físicos, químicos e biológicos do solo, além de nutrição mineral de plantas. Lecionam também nos cursos de Graduação em Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal, Gestão Ambiental e Ciências Biológicas, ministrando disciplinas essenciais e optativas.

Tecnologias – Na próxima reportagem da série “O solo nosso de cada dia”, mostraremos contribuições das áreas de química dos solos, bem como as tecnologias sensoreamento remoto, química ambiental e pesquisas direcionadas ao setor sucroenergético têm ajudado a melhorar a qualidade de vida no campo e nas cidades.

Texto: Caio Albuquerque (31/08/2015)

José Luiz Ioriatti Demattê, professor aposentado da área de Mineralogia e Geologia (crédito: Gerhard Waller)
Zilmar Ziller Marcos, docente aposentado da área de Física do Solo (crédito: Gerhard Waller)
Palavra chave: 
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